Vivo numa cidade demarcada. Marcos de pedra, limites, cercas e muros. Vivo numa cidade sitiada pela posse. "Na minha cidade a gente aprende a morrer só", como diz Márcio Borges e Milton, e aprende a esquecer. Mesmo hoje depois de tanto "avanço", nestes tempos de tanta reflexão políticamente correta, ainda cultuam certos "vultos" (e são vultos, sombras mesmo) de nossa história, hérois que se notabilizaram pela crueldade e cobiça, pelo desejo de poder e prazer... hoje merecem estátuas e status de épicas proporções. Meu 9 de março tem um significado bem diverso do que estou vendo por essas bandas. Não consigo pensar em festa, em aplaudir uma "civilização" que se firmou sobre o sangue de outra, "civilização" que se apossou em nome de uma "fé" de um chão que não tinha dono porque os que viviam aqui sentiam-se pertencidos à natureza e não o desastroso contrário que os europeus trouxeram em suas naus... como posso comemorar a devastação da mata atlântica, a poluição dos rios, a matança e contrabando de animais, a dizimação de tribos, seja pela espada, seja pelas doenças que mataram uma população que nunca precisara antes se tratar de um simples resfriado... Somos todos resultado desses desencontros e encruzilhadas históricos, eu sei. Somos cria desse tempo, herdeiros também... isso não nos obriga a rituais tão contraditórios, a cerimoniais tão pios para celebrar crimes hediondos. Creio que a palavra genocídio não será lembrada, nem pronunciada hoje por alguma ilustre figura que em solos de Igarassu for tecer elogios à Duarte Coelho, soldado nas índias, colonizador no Brasil, mãos de ferro em Pernambuco... ninguém perceberá o lapso (afinal há coisas muito belas para se falar... feitos heróicos, benfeitorias, desenvolvimentos...) ninguém fará a menor questão por lembranças de luto e dor (afinal como já me disse certa vez alguém: "eles já estão mortos mesmo..."). Cosme e Damião foram médicos cristão martirizados por terem dedicado a vida aos pobres, séculos depois tornam-se patrocinadores de batalhas sangrentas... espero que o sono dos justos os tenha impedido de ver tamanha agressão à suas histórias de caridade e entrega... quanto a mim continuo sem conseguir engolir esse amargo travo que a história guardou... outros sequer tem conhecimento e muitos que tem procuram esquecer, varrer pra debaixo do tapete... faço agora o que fiz ano passado e farei enquanto minhas mãos e meus olhos permitirem: grito com palavras na tela como gritaram os índios (segundo nossa "linda" lenda) seu grito-escarro Igarassu, não um grito de espanto (eles já conviviam com navios a pelo menos trinta anos) mas um alarme, um aviso, presságio de tragédia, não havia festa no som entre as folhas da mata, o grito atravessou folhagens para avisar que a morte chegava... Igarassu: um marco de pedra. Um marco de sangue. Meu 9 de março não tem hérois, nem sinos dobrando esquinas barrocas...
domingo, 9 de março de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Mulher entre salamandras
Ninho,
peças dispostas
à gravura do campanário,
novelando-se
reptilianas omoplatas,
espáduas de bronze
retorcido, porta-seios
de medonhas ferragens,
sustendo-se nas tranças
trêmulas da tarântula,
os olhos da moça,
seu corpo entre corolas
de pus e lama, maciez
de pelos subsolos,
por dentro
de suas carnes tépidas,
catástrofes e torrentes
gangrenadas, não cessam,
por sobre pedras e músculos
coagulavam algumas feridas,
rabiscos não se gravam em
fogo brando, necessário é
a pira de todas as imensidões
ardendo abóbadas, necessário
é a música das brasas,
necessárias salamandras,
iletradas, mordendo teus nervos,
fazendo círculos na tua nudez.
À roda o mundo, contudo ressonas.
peças dispostas
à gravura do campanário,
novelando-se
reptilianas omoplatas,
espáduas de bronze
retorcido, porta-seios
de medonhas ferragens,
sustendo-se nas tranças
trêmulas da tarântula,
os olhos da moça,
seu corpo entre corolas
de pus e lama, maciez
de pelos subsolos,
por dentro
de suas carnes tépidas,
catástrofes e torrentes
gangrenadas, não cessam,
por sobre pedras e músculos
coagulavam algumas feridas,
rabiscos não se gravam em
fogo brando, necessário é
a pira de todas as imensidões
ardendo abóbadas, necessário
é a música das brasas,
necessárias salamandras,
iletradas, mordendo teus nervos,
fazendo círculos na tua nudez.
À roda o mundo, contudo ressonas.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Por meus olhos: Uma partida da NAUvoadora
Foi como a imagem da pedra varando a face das águas. Primeiro o impacto e os respingos, ritmo de explosão reversa, escultura deliquescente disforme dilatada dentro do segundo exato do choque. Depois os círculos vibrando na pele líquida, e os minutos se espraiando em ondas. Foi como um lago que se deixa percorrer pelo arrepio da pedra no fundo, pesando sua fundura inerte. Ao tempo que as correntes não calam em sua prisão desce um correr fluxo, sentido, vereda. Bifurcação infinita de setas, sinais, signos e constelações no espelho das águas e elas passando, rolando sobre suas próprias longas sendas. A pedra e as águas represadas. Foi assim a Nau em busca dos foras do porto, dos longes em cima de linhas de horizonte, das longitudes do enigma da noite. Foi assim que a cidade tornou-se o próprio rio, ressinificando Jussara na liturgia da tribo devastada e Domingos no calendário dos altares de ouro e prata. Foi a ladeira aplanando como a linha da folha, como o risco da letra I sendo golpe primeiro na tela. Foi o olho do espanto escancarando em cancela e cílios sendo dentes pelos de pavor desurdidos. Foi o som perdendo abóbadas entre pingos, nuvens e lamparinas apartadas no negro silêncio de além-atmosferas. A corda vibrando sob a unha, a tecla espancada nas escalas, a voz escarrada na calçada. O compasso quebrando nas quiálteras e no composto das pisadas. Foi a voz do rosto em cada um dizendo tudo do cansaço à fome de baralhar versos entre dados adulterados, entre lavras de insepultos versificados cantos entre as pedras. Foi o pé na madeira, o som nos ventos, a luz nas lentes, a palavra entre dentes. Foi a garrafa arremessada nas laterais negras da embarcação e ela largando das tábuas do mundo, da pedra, da folha. Eu vi. Eis.
Agosto de 2013
Agosto de 2013
domingo, 13 de outubro de 2013
Dar a ver Igarassu
A uma mulher sem nome
És o signo
que intranqüiliza
o texto de meu corpo.
E me desveste
os trajes de pedra
e vidro e máquina.
E me ensina
a nudez mais frívola
e prosaica e pragmática.
Passeio Público
I
Avenida,
Serpente em ebulição,
Zoom
repintando
Na
tela de cristal líquido
Escamas
de dragão,
Lagarto
em arco-íris,
Réptil
ao vivo e a cores,
Sem
vestígios de hemoglobina
Nas
bandeiras fincadas
No
relevo dorsal,
II
Avenida,
Galho onde o camaleão equilibra,
Linha
de passar a língua,
Eriçando
as paredes em nudez
De
arranha céu
Ali
seus passos (Saltando
Para
sala de estar via 3D
Junto
com brasões indecifrados
Nas
patas, nas costas,
Nos
sulcos das costelas,
Entre
as nervuras da pele,
Nas
paredes das artérias,
No
teto em rachadura do crânio,
Bem
atrás das duas candeias)
São
soterrados pela elipse
Na
escala descendente
De
Um
Grito
III
Avenida,
Tarântula em carne viva,
Incêndio
de patas semifusas
em rubato,
Bicho
que manchando a lente
Das
libélulas de aço,
Desconcerta
o voo, diz farsa.
Distorce
megapixels em sépia,
Mastiga
um carro blindado,
Cospe
um cadáver de olhos
Vazados
Por
onde gotejando
O
pus de toda cidade
IV
Avenida,
Cobra de duas cabeças
De
vidro temperado
Pela areia dos poros, pele do deserto,
Num
megafone, meio de rua, alguém
ordenando:
“Grafitar
o verso anterior nas sendas do corpo.
Depois
os passos. A torrente dos fartos.
Gravar
no asfalto a chama dos descalços.”
E
o bicho enfia-se de cabeça
No
ralo em redemoinho
Rumo
à lama e às plumas de outra fera
quinta-feira, 4 de abril de 2013
"A monarquia vai voltar pro Brasil"
Também me espantei com essa declaração
quando pus os pés hoje no terminal da macaxeira. Uma senhora muito bem vestida,
com postura e impostação vocal dignas de um arauto da família
real vomitava aos quatro cantos mal projetados daquele lugar de
suplício a mais nova e absurda profecia de terminal. Para os bem-aventurados
que não precisam passar todos os dias pelos purgatórios que eufemicamente
chamamos de integrações fica difícil explicar a tortura que é além de esmagado,
ofuscado, violentado pelos outros, ser alvo das pregações messiânicas desses
seres sacrossantos que chamo carinhosamente de profetas de terminal tão
solícitos em nos apontar os caminhos mais largos para as chamas e o ranger de
dentes enquanto esperamos nossos cubículos sobre rodas. Tenho ainda mais
dificuldade de explicar o esforço imenso que fiz para não cair numa crise de
riso irreversível quando tomei conhecimento de uma notícia tão importante para nossa
identidade nacional. Depois do primeiro choque tentei construir linhas de
raciocínio que me apontassem a sanidade mental da digníssima senhora
(eu sinceramente simpatizei com aquele rosto que parecia conter alguma
bondade) ela poderia estar usando o discurso figurativo para anunciar o reinado
de Cristo (o que não deixaria de me assustar por que não consigo imaginar a
figura de Cristo junto ao que a maioria das monarquias representou ao
longo dos séculos) ocorre que ela resolve explicar mais e dizer que teremos um
rei assim como Dom Pedro I o que levou definitivamente minhas esperanças de que
tudo não passasse de um lance de oratória para atrair a atenção do povo. Também
não posso deixar de observar que até aqui temos uma profetisa diferenciada, nada
de versículos soltos falando de maldições e castigos, nada de avisos sobre dias
e horários do julgamento final, nada de acusações cuspidas nos rostos de quem
se arrasta nas filas, parecia realmente se tratar de uma enviada especial de
alguma corte obscura talvez escondida em algum bairro nobre de
nossas metrópoles apenas esperando o momento mais dramático para dar seu
golpe de estado restaurando democraticamente pela vontade do rei um regime que
fora soterrado por um século de avanços ( e muitos retrocessos, claro) e uma humanidade que mal engoliu e hoje talvez só tolere por puro folclore as monarquias
de vitrine que ainda resistem em alguns locais do mundo os quais prefiro não
referir por uma questão de respeito a quem simpatiza com velhinhas bonachonas
usando coroas e cetros de ouro...
Por fim o momento
mais aterrador foi quando ela revelou que fora enviada por Deus para anunciar a
nova (que está muito longe de ser boa e deixo bem claro o misto de tristeza e
revolta diante de desvios tragicômicos como o dessa iluminada pela ignorância).
A partir daí percebi a inutilidade de perguntar se teríamos uma
monarquia parlamentarista. Com certeza uma legitimação tão incontestável não
deixa margem para duvidar que nos salões do palácio do planalto se ouvirá por
muitas gerações o toc-toc de sapatos à la Luis XIV.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Pluviômetro
Nestes dias em
que chove gente nas ruas de Recife e os transeuntes finalmente resolvem andar
olhando para cima, mesmo que não seja buscando a contemplação do espetáculo
celeste e sim preservar sua integridade física, ousei contemplar o espetáculo
patético de nosso desespero. Ah como gostamos de resolver as coisas dando
saltos mortais de vigésimos andares de prédios decrépitos e como gostamos mais
ainda de ficar ali circundando a poça desconjuntada na calçada enquanto não
chega nossa vez de pedir ao ascensorista: “Último andar, por favor. Vou chover
sobre Recife.” Não, não se preocupe que ele não vai te achar um louco, muito
menos olhar dentro de seus olhos procurando os indícios de tua insanidade, ele
mesmo já marcou a atividade pluviométrica dele para as oito horas, prefere a
noite, tem algo de poeta este ascensorista, querendo chover entre as estrelas,
pra depois estourar-se entre estrumes e latinhas de cerveja no meio fio.
Naquele momento com certeza os boletos, os recibos, os exames, os processos e
toda sua vida de merda e papéis estufando sua parca carteira não passarão do
chão duro da Avenida Dantas Barreto, sem contar os segundos que ele terá num voo tantas vezes adiado, desde a infância, embora naquela época ainda esperasse
uma aterrissagem menos traumática. Hoje sabe que terá uma morte instantânea, já
fez todos os cálculos, velocidade do vento, seu peso vezes x e mais um bocado
de sorte para cair de cabeça, tudo pensado para não dar trabalho à morte. Mas
que coisa, este herói quase me faz perder a direção que eu queria dar a estas
linhas! É que ele carrega essa simpatia perturbadora de uma espécie de suicida
que te engana direitinho. “Esse cara é de bem com a vida”, “Ele é que é feliz”,
“Que inveja desse sorriso, quase rasgando a boca” tudo não passando de um véu
frágil, grande fingidor este rosto de bigodes fartos e olhos fundos com uma
voragem dentro do peito contando regressivamente para a decolagem. Deixemo-lo
subindo e descendo nesta gaiola, cumprimentando a próxima gota deste temporal
inesperado, talvez uma senhora bem vestida, segurando seu último cigarro ou um
rapazote tímido tossindo ao dar sua primeira tragada, ou então esta moça bonita,
este homem de terno listrado, o outro segurando um violão... Veja só como este
cubículo está lotando e agora fica difícil definir quem é quem, pois então
fiquem assim todos agarrados, subindo, descendo, subindo, desce... até que
alguém diga: “Tá bom. Agora eu vou.Cansei dessa brincadeira idiota” E os outros
ficarão esperando o baque surdo e a gritaria dos vendedores de pipoca, dos
cobradores na janelas dos ônibus, e os passos medidos do policial, mãos presas
às costas, revólver cintilando ao cruzar a luz do poste, rosto tão vazio quanto
o do menino, ao lado do cigarro que não mais lhe pertence. Que esta cena
congele, eu não me propus visitar tantos rostos, queria apenas justificar este
meu novo hábito de andar perscrutando as marquises, não é só medo de morrer
assassinado por um suicida, é que além do imenso transtorno eu acabaria
perdendo a beleza que deve ser o vôo dentro da noite e da cidade, quando tudo
vira um só, quadrado dentro do círculo, unidade e fragmento, poesia e bula de
remédio, quando nada mais importa. Olho para cima. Imagino as nuvens dançando
sobre todos esses tetos e agora que apareceu uma vaga neste elevador tenho que
entrar. Um rosto de bigodes fartos e olhos fundos me encara.
“Último andar,
por favor. Vou chover sobre Recife”
Jonatas Onofre
18/05/12
sábado, 9 de março de 2013
Sobre calendários e Almas
Um amigo me falou sobre um congestionamento de almas nas proximidades do sítio dos Marcos aqui em Igarassu... sim um grande transtorno para quem tencionava comemorar um dia tão importante como este 09 de março, distante quase quinhetos anos de um outro dia comum com o mesmo marulhar de ondas, com som de pássaros e de folhas sendo remexidas pelo vento... sim... aconteceu um 09 de março maravilhoso para um bando de heróis que pisou neste chão com ordens reais nos bolsos e muito desejo de posse (diga-se direito legítimo de cobiça) no peito e nos olhos. Dia de sol e fim de espera, dia de grandes começos e progresso, uma dia único na vida de vários povos. Uma encruzilhada da história, um capricho do tempo em conspiração com o calendário juliano, uma ruptura na diacronia sempiterna e organizada de nossos livros didáticos.
Hoje pra mim não é dia de festa... cada segundo desse dia deveria ser preenchido de versos para uma infinita elegia pelos milhares de corpos que o tempo devorou, oficial e sacrossantamente, a partir de um fatídico 09 de março. Não condenarei à mesma condição desterrada dos índios que não mais correm perto das águas aos distintos cidadãos que hoje dançam ciranda perto das águas ou tecem louvor à grande empresa lusitana... mas é uma pena que não lembrem...nem chorem... Dom Duarte e sua imagem severa e fascinante de soldado, administrador, déspota e herói épico de uma Nova Lusitânia que me perdoe a ousada investida destas letras mas calar dói muito mais que o desabafo...
Pois lembremos dos índios em seu congestionamento etéreo que eles devem ter lembrado de hoje também e vieram de onde quer que estivessem com seus corpos pintados de urucum, seus brincos e ossos e seu sangue de Uirapitang, suas feridas de mosquetes e bestas, suas chagas purulentas, seus pulmões podres de uma gripe sazonal inofensiva, seus olhos de indiferença perdidos num céu de araras e nuvens... Ah tantas almas voando enquanto muitos dançam e esquecem e desconhecem seus nomes. Comemoro hoje com marcos de pedra, lama e sangue o início de um genocídio... e espero que todas as almas organizem-se em fila indiana para seu passeio por aquelas bandas e voltem logo para seus lugares... afinal tem muita gente que deve estar louca pra fazer festa hoje e engrandecer grandes vultos de nossa história... neste grande dia de nossa vergonha... e pelo visto alma de índio só atrapalha numa hora dessas.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Castrati
domingo, 27 de janeiro de 2013
Telejornal
Para Claudio Daniel
As antenas refulgem
nas pedras longe de Gaza
à luz de uma estrela
dessas de quinta grandeza.
Faz uma imagem limpa
em 29 polegadas e é fácil
controlar o volume do sangue
com o controle remoto
mas nós sabemos
que este sol é uma farsa
e que as parabólicas
devoram cadáveres
e escondem os ossos sob a areia.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
VANITAS
Sob esta estrela
tudo não ultrapassa
o arder e as constelações
de uma vela
enfunada ao sabor
de alísios,
embalada pela tábua
de marés,
faces da lua,
dança dos signos,
sono de girassóis.
Enquanto não chega
o sopro da manhã
que lhe apague.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Álbum de uma cidade
III
Anoitecia sobre Igarassu.
O mangue penetrando-a.
Sob a ponte de ferro
perecem restos de semente.
perecem restos de semente.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
Faixa De Gaza
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Voz do deserto
Certa vez vi o silêncio abraçar a palavra. Cena terrível, as duas feras dançando no tempo. Tentáculos de navalha e deserto enlaçando o verbo, e ele qual pedra impassível, resistindo. Não é nada demais admitir que o poema brota do deserto, da aridez e da refrega. O verso torna-se reflexo do corte e da lãmina. E prefiro assim, a voz do deserto penetra mais fundo: como o sol no pleno meio-dia ou o vento gelado da noite sem lua. Quero o poema que guarde a poesia como a bainha guarda a lâmina, e que os versos tenham o corte profundo e lento das melhores facas de pasmado, temperadas e sedentas.Quero a poesia perigosa e afiada, que provoca e agride, sugere e embaralha. Assim torna-se real o labirinto e a charada, o segredo cresce na madrugada enquanto o poeta se perde nas horas de seu desatino. Quero a sombra para me perder nas possibilidades, selva de sugestões e possíveis, também quero o tiro cruel deste sol nordestino sobre os olhos para ter a mente alerta na cegueira da lucidez e do suor. Quero entrar no útero secreto de minha oficina pegar a concha e em vez de ouvir a imensidão das águas, deixar o silêncio me ensinar, com seus tentáculos de navalha e deserto, a afiar minha faca só lâmina.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Os Espelhos da Retina
"São os teus olhos a luz de teu corpo"
Jesus Cristo
As pálpebras unidas. Formando a linha de carne, fronteira escura e silente. Sugerindo dentro das trevas uma nova fauna, e a selva emaranhando-se em carícias, revolta, crescendo no vazio. É dentro desta muralha, onde a carne torna-se pedra e gume, e os vidros em lâminas se destilam, num rio de cacos e fragmentos, correnteza e queda, além do intransponível, onde as horas tornam-se farelos ao vento, restos do vômito de cronos, liberdade perecendo. O poeta aventura-se por tais veredas, em sua loucura de sóis e pássaros, abrindo portas nos corredores do silêncio e deparando-se com mais portas, e câmaras e corredores, até se aperceber do labirinto e seus dentes de segredo. Enquanto fechados, e não imersos no sono, os olhos despertos no escuro visitam as paragens onde nunca foram, onde não estão, nem conhecem, mas de onde nunca saíram. Os olhos fechados, nesta teia de cílios, neste esmagar de nervos, no rasgar de peles e pêlos, soltam-se das órbitas, viajam em seu girar, como balões de sangue e lágrima. Único espelho a funcionar no completo vazio, na própria ausência da superfície polida ou gasta, a retina é aquilo que devora as coisas em suas fronteiras dentro dos instantes. Dar a ver e ver-se. Diante da imagem o poeta e seu espanto. Não lhe serviria saber o que é poesia, não teria tempo de preparar seu cérebro azul para receber iluminação tão terrível, sem sangrar por todos o poros que o corpo abrisse. Há o medo dessa morte e castigo, medo de descobrir esta única verdade absoluta. Mas ao mesmo tempo há o que impele o corpo dentro das manhãs solares, o que impele as mãos sobre a superfície branca, o que impele os ouvidos dentro das paredes do silêncio, o que abre os espelhos da retina sobre a quadratura circular do mundo e ensina o segredo indizível e sereno antes de desferir o golpe certeiro entre os dois lumes em nossos rostos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Liturgia do Vazio
Olhar as coisas em suas indefinições, dentro das névoas e cortinas, enigmas, labirintos. Buscar o mistério das coisas. O poeta em sua devoção pela procura não deve temer o perder-se, muito menos as trevas, nossa essência barroca, ou seja lá o que for, isso que nos tensiona sobre a fronteira entre a luz e a treva. Luz que revela, limpa, solar e exata, das oficina nas manhãs, dentro das alvas, luz que desperta e também cega. Trevas que sugerem, férteis, oníricas e inexatas, tentações de imaginação. O jogo eterno que coloca poeta e poesia no centro. Daí a angústia de criar tendo sobre a cabeças as espadas de dois mundos, o temor de algo mais profundo e terrível. Saltar no vazio, praticar o suicídio diário é o que faz o poeta. Ao acreditar na poesia. Mesmo sem saber sua definição. Se poeta é o que faz poesia o que é fazer poesia? será que quem lê não mergulha no suicídio cotidiano da busca também? não existe fim no poético, ele sempre excede, expande e condensa. Num jogo de opostos que o pereniza e sustenta. Quem lê precisa ser mais poeta que quem escreve (quem disse foi Leminsk) e eu acredito. Acredito na poesia das coisas. Na poesia como o mistério de todas as coisas assim como todas as coisas tem seu mistério (quem me ensinou isso foi Lorca). A poesia penetra-nos a profundeza e revela o quanto de mistério medra em nosso corpo e alma. Não existe religião no poético, mais há a liturgia do vazio, o culto solitário da forma, o cântico dos olhos em fuga, esquadrinhando o mundo, perscrutando as distâncias dentro das horas e querendo sorver o mundo, e querendo deixar-se devorar. A dor do vazio atrai, num paradoxo incontornável. E prosseguimos até a borda do nada. Nos resta perder o medo... e saltar.
Kamikaze
I.
Provocar o vazio
e dar o salto.
Ir além da linha, dissipá-la
e negar o abismo sem sorvê-lo.
Ser apenas queda
sem escalas.
Deixar o corpo
aceso dentro da hora
e congelar os transeuntes,
os carros, as nuvens
na dança estática do agora.
Deixar-se no poema que inaugura
a tarde da cidade.
E fechar os olhos
lentamente
enquanto o sangue ainda arde.
II.
Olhar através do concreto.
O céu arranhado da cidade.
A hemorragia do ocaso
Ignorada no vôo.
E sentir-se exato
ao verter o enigma.
E não voltar atrás
antes da borda do vazio.
Provocar o vazio
e dar o salto.
Ir além da linha, dissipá-la
e negar o abismo sem sorvê-lo.
Ser apenas queda
sem escalas.
Deixar o corpo
aceso dentro da hora
e congelar os transeuntes,
os carros, as nuvens
na dança estática do agora.
Deixar-se no poema que inaugura
a tarde da cidade.
E fechar os olhos
lentamente
enquanto o sangue ainda arde.
II.
Olhar através do concreto.
O céu arranhado da cidade.
A hemorragia do ocaso
Ignorada no vôo.
E sentir-se exato
ao verter o enigma.
E não voltar atrás
antes da borda do vazio.
Assinar:
Postagens (Atom)









