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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Voz do deserto

Certa vez vi o silêncio abraçar a palavra. Cena terrível, as duas feras dançando no tempo. Tentáculos de navalha e deserto enlaçando o verbo, e ele qual pedra impassível, resistindo. Não é nada demais admitir que o poema brota do deserto, da aridez e da refrega. O verso torna-se reflexo do corte e da lãmina. E prefiro assim, a voz do deserto penetra mais fundo: como o sol no pleno meio-dia ou o vento gelado da noite sem lua. Quero o poema que guarde a poesia como a bainha guarda a lâmina, e que os versos tenham o corte profundo e lento das melhores facas de pasmado, temperadas e sedentas.Quero a poesia perigosa e afiada, que provoca e agride, sugere e embaralha. Assim torna-se real o labirinto e a charada, o segredo cresce na madrugada enquanto o poeta se perde nas horas de seu desatino. Quero a sombra para me perder nas possibilidades, selva de sugestões e possíveis, também quero o tiro cruel deste sol nordestino sobre os olhos para ter a mente alerta na cegueira da lucidez e do suor. Quero entrar no útero secreto de minha oficina pegar a concha e em vez de ouvir a imensidão das águas, deixar o silêncio me ensinar, com seus tentáculos de navalha e deserto, a afiar minha faca só lâmina.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os Espelhos da Retina


"São os teus olhos a luz de teu corpo"
Jesus Cristo

As pálpebras unidas. Formando a linha de carne, fronteira escura e silente. Sugerindo dentro das trevas uma nova fauna, e a selva emaranhando-se em carícias, revolta, crescendo no vazio. É dentro desta muralha, onde a carne torna-se pedra e gume, e os vidros em lâminas se destilam, num rio de cacos e fragmentos, correnteza e queda, além do intransponível, onde as horas tornam-se farelos ao vento, restos do vômito de cronos, liberdade perecendo. O poeta aventura-se por tais veredas, em sua loucura de sóis e pássaros, abrindo portas nos corredores do silêncio e deparando-se com mais portas, e câmaras e corredores, até se aperceber do labirinto e seus dentes de segredo. Enquanto fechados, e não imersos no sono, os olhos despertos no escuro visitam as paragens onde nunca foram, onde não estão, nem conhecem, mas de onde nunca saíram. Os olhos fechados, nesta teia de cílios, neste esmagar de nervos, no rasgar de peles e pêlos, soltam-se das órbitas, viajam em seu girar, como balões de sangue e lágrima. Único espelho a funcionar no completo vazio, na própria ausência da superfície polida ou gasta, a retina é aquilo que devora as coisas em suas fronteiras dentro dos instantes. Dar a ver e ver-se. Diante da imagem o poeta e seu espanto. Não lhe serviria saber o que é poesia, não teria tempo de preparar seu cérebro azul para receber iluminação tão terrível, sem sangrar por todos o poros que o corpo abrisse. Há o medo dessa morte e castigo, medo de descobrir esta única verdade absoluta. Mas ao mesmo tempo há o que impele o corpo dentro das manhãs solares, o que impele as mãos sobre a superfície branca, o que impele os ouvidos dentro das paredes do silêncio, o que abre os espelhos da retina sobre a quadratura circular do mundo e ensina o segredo indizível e sereno antes de desferir o golpe certeiro entre os dois lumes em nossos rostos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Liturgia do Vazio

Olhar as coisas em suas indefinições, dentro das névoas e cortinas, enigmas, labirintos. Buscar o mistério das coisas. O poeta em sua devoção pela procura não deve temer o perder-se, muito menos as trevas, nossa essência barroca, ou seja lá o que for, isso que nos tensiona sobre a fronteira entre a luz e a treva. Luz que revela, limpa, solar e exata, das oficina nas manhãs, dentro das alvas, luz que desperta e também cega. Trevas que sugerem, férteis, oníricas e inexatas, tentações de imaginação. O jogo eterno que coloca poeta e poesia no centro. Daí a angústia de criar tendo sobre a cabeças as espadas de dois mundos, o temor de algo mais profundo e terrível. Saltar no vazio, praticar o suicídio diário é o que faz o poeta. Ao acreditar na poesia. Mesmo sem saber sua definição. Se poeta é o que faz poesia o que é fazer poesia? será que quem lê não mergulha no suicídio cotidiano da busca também? não existe fim no poético, ele sempre excede, expande e condensa. Num jogo de opostos que o pereniza e sustenta. Quem lê precisa ser mais poeta que quem escreve (quem disse foi Leminsk) e eu acredito. Acredito na poesia das coisas. Na poesia como o mistério de todas as coisas assim como todas as coisas tem seu mistério (quem me ensinou isso foi Lorca). A poesia penetra-nos a profundeza e revela o quanto de mistério medra em nosso corpo e alma. Não existe religião no poético, mais há a liturgia do vazio, o culto solitário da forma, o cântico dos olhos em fuga, esquadrinhando o mundo, perscrutando as distâncias dentro das horas e querendo sorver o mundo, e querendo deixar-se devorar. A dor do vazio atrai, num paradoxo incontornável. E prosseguimos até a borda do nada. Nos resta perder o medo... e saltar.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Aos Companheiros de Ofĩcio

"O poema brota do espanto" (Ferreira Gullar). Diante do homem o retábulo da vida, a tela barroca dos instantes e o vazio. Como nos ensinou o grande poeta: deixemos em paz nossa cidade, suas ruelas, seu casario, sua gente, deixemos no torpor das horas o corpo que se adensa, a vontade desatinada, a música de cada dia na fábrica do cotidiano, deixemos os homens e as crianças girando nestas rotas de sempre, nos trajetos corriqueiros, na fugacidade dos passos sobre as pedras, esqueçamos o rio, a ponte e toda água que transcenda as margens ,deixemos o sentimento, o incansável sentimento do mundo e nossas mãos rotas...
cala-te
e procura neste silêncio a eloquência do infinito, revisitando a memória, perscruta toda fuga, prova toda loucura, alcança o impensável, instaura o intangível, transgride o sacro e brando, então, quando as fronteiras tiverem ruído e alargados os horizontes, abre teus olhos e afia tua voz, pois terás diante de ti o retábulo da vida, a tela barroca dos instantes e o vazio, e sentirás que a poesia é da busca, não importando se encontrarás no fim (mesmo se houvesse um fim) aquilo que não se limita, alcança, abraça, que nossas tão poucas duas mãos não afagam mas como algo dentro de nós, lá onde não se divisa carne, osso e matéria etérea, no cerne, no caroço do corpo reside e prova o que fica. Para que serve o amor? a amizade? a poesia? me faço tais perguntas como um dia fez um grande poeta, e como ele não as respondo, sei do quanto é inútil a certeza nessas horas, sei apenas o não saber do fim, mesmo assim te proponho a procura: uma das faces da poesia. um dos sentidos da vida. e a razão de nosso ofício.
"Do espanto nasce o poema" (Ferreira Gullar)
05/11/2011 em Igarassu

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ao ouvir / voar / velejar (n)uma Barcarola


A melodia adensa-me nas coisas e na cena, sentir a música é muito mais que ouvir é um deixar-se devorar pelo som, é um ser- som... e os acordes, as escalas, e as vozes povoando o vazio, e o dedilhado nas casas da viola, as cifras fulgindo verdes, rubras, douradas do braço dos violões, das teclas cromáticas do cravo, do saltério que repousa no colo de acalantos, das cordas pendentes dos seios da pastora casta. O quarteto vocal derrama-se em dissonâncias, e um sudoeste vadio arrasta ora para longe, ora para perto a cantiga flutuando nas águas claras do Velho Chico. A sereia despiu-se mais, o rio se fez mais veloz, a melodia tornando-se árvore e sombra sobre a barcarola e os corpos delgados dos trovadores enrolando-se, rolando numa ciranda, fundindo-se em carne e nervo, incendiando-se com o diabolo in musica, tão longe agora o patíbulo e as chamas e o Santo Ofício. Ieronimus Bosch e Bach confabulam ao fundo numa chuva de partituras, telas pincéis e trompas inflamadas... tão instantânea é esta cena construindo-se, como este texto ensandecido, como este ouvinte preso ao feitiço daquilo que lhe pedra no peito e queima nas mãos... e os dedos já me pedem sons... e agora deixai-me pegar meu violão, que para nada serve o dizer nestas horas embriagadas:

"Noite longe que ficou em mim
quero levar. ( Geraldo Azevedo / Carlos Fernando )"