sábado, 4 de junho de 2016

Considerações escabrosas sobre topografia, fitas K7 e doenças crônicas do fígado ou notas de crítica amadora sobre o suicídio iminente de Maui Mallard (vulgo Cold Shadow) ou do rosto sob vários rostos e seus nomes.






I

Precisamos falar sobre o abismo. Deixo claro minha preferência por ambiguidades ao abrir meu texto com essa frase. É (também) sobre inexatidões discursivas, portas falsas e esquivas retóricas que pretendo discorrer aqui.  A princípio preciso (lançando mão de toda redundância que estiver ao meu alcance) dizer que as cinco primeiras palavras desse exercício de extravio implicam na abertura de uma bifurcação medonha: A - Ter o abismo em toda sua dimensão franqueada à queda livre como objeto central de uma conversa séria. B - Ter essa conversa séria sobre ou à beira da bocarra absolutamente falsa desse abismo. Não falo como alguém que escapou daquela escarpa, como um corpo que galgou todos os andares do abisso de volta à luz de um terreno livre de rarefações, até a presente data ninguém conseguiu tal maravilha ou desgraça final. Observaremos de perto o funcionamento do sorvedouro e se o  leitor estiver intrigado com essas referências tão insistentes feitas a um relevo possível para uma paisagem passível de esquecimento ou desprezo posso reafirmar meu gosto pelo ângulo insignificante e depreciado das coisas, pelo monturo e pela face patética (quase sempre a custo) escondida atrás de tudo (desde os gestos da feiura no escuro de um lugar-comum à imodesta aparição de algo belo sob as fluorescências de alguma novidade – aqui entrariam as únicas gargalhadas desse traçado tragicômico, um instante de alívio antes de começarem as crises de choro -) e assumir, muito mais que confessar, meu fascínio pela caligrafia tipo B inaugurada pelos desastres que apresentarei nas próximas linhas. Falar do abismo é colar o rosto vincado de agonias no rosto cheio de poeira e ácaros do fracasso. Que ninguém se engane: nenhum fracasso pertence ao futuro. Repare nos detalhes daquilo que deu errado e será fácil perceber o aspecto de móvel apodrecendo que todo malogro tem ao cometer sua metástase (desde o despontar da ideia infalível: seja livro, seja canção, seja a invenção que for) dentro do mecanismo mesmo que indicava algum sucesso. O fracasso sempre estará “nos rondando como um leão. Pronto para nos (es)tragar” e se uso uma corruptela de São Pedro aqui não é para indicar algum aceno teológico, um pedido de socorro ao inefável. Estou sinalizando com uma metáfora alheia a imagem real de mais um braço a nos puxar para mais fundo: O fracasso e o abismo tão gêmeos siameses com o súcubo de juba e quatro patas pintado (para pavor dos fiéis) pelo apóstolo. O fracasso posicionado como espelho a multiplicar o abismo também escancara os infinitos caninos sem língua. O fracasso (mesmo que só por algumas horas) também será o abismo.
Meu pseudo-pensador-abismado de cabeceira chama-se Emerenciano Costa, que também atende se alguém gritar no meio do beco da fome noir em plena meia noite de contorcionismos etílicos: “Él bodegón!”. A figura do abismado precisa ser melhor explicada. Admito. Carecemos de estudos sérios no campo da psicanálise, da filosofia, da sociologia (porque não) para depois chegar a alguma crítica de arte sobre esse espectro inflamando pseudarte. Bom, assim seria mais correta a viagem, mas não dispomos de escalas tão bem marcadas para o trajeto. Terei que trabalhar com invenção e (quase) nenhum método para desvelar alguns (pouquíssimos) traços desse sujeito-sem-jeito. No meio desse reino de fossas secas em que estamos visivelmente desconcertados até o pomo de adão eu não procuro, nem de longe, fazer aqui qualquer movimento de ofensa. Costa bem o sabe, mas vocês não perdoem a escatologia. Talvez seja algo completamente extrínseco. Não me importa. “Falar é fácil, obrar é coragem” [isso minha vó materna, que nunca conheci, dizia em momentos de gravidade e com a devida tensão dramática que a frase exigia]Sei que é difícil para muitos perceber onde há algum mérito no que estou dizendo. Estou sim debochando em cima dos trapos de uma figura. Muito embora não esteja sequer “triscando” no rosto que trinca os dentes debaixo dos nomes que a pouco anunciei. O abismado desconhecendo fraternidades é o melhor amigo, não solta tua mão enquanto despenca solfejando: “Hello darkness, my old friend”. Pois bem, conhecendo o abismado vislumbramos o abismo. Talvez assim uma cratera fique mais aberta sob nossos pés e se estamos aqui na pretensão ingênua de desvendá-la, bem que podemos merecer um deslizamento para seu escuro sem chão. O abismado sempre estará pronto a nos conduzir para lá.
O espírito que anima a matéria de El bodegón tem um nome (em todos os sentidos que forem necessários), constrói uma obra e certamente preferirá qualquer apelido de demônio (inclusive há suspeitas de que El bodegón e Emerenciano Costa o sejam)  para ajuntar ao nome de cartório. Chama-se Ítalo Dantas e usa de malabarismos de realismo-trágico para continuar seus trabalho com sua editora independente La bodeguita. Foi a própria mamífera tão carinhosamente batizada com uma sentença diminutiva que deu à luz dois (poemas para matar demônios & corrente de bike no pescoço) dos três tomos da (informalmente batizada e nem por isso menos contundente) trilogia do abismo (o outro volume: “nome”, continua inédito). A importância desse “movimento de roda de bmx levantando poeira” ou mais diretamente essa rabiada (à espera de sua terceira jante) que o mancebo Ítalo desferiu no horizonte metafísico de nossa literatura contemporânea não pôde ainda ser (des)medida. Suas profecias ainda aguardarão muito tempo para serem devidamente mastigadas por alguma dentadura dupla de nossa época?
*
Toda profecia age no instante do atraso. Esqueceram de deixar isso claro para Maui Mallard.

II

Acho que é importante saber:
Segundo uma lenda de um povo nativo de uma ilha misteriosa em algum ponto de algum oceano, fizeram um sacrifício aos deuses atirando o corpo ainda vivo de Maui Mallard num vulcão. O corpo não morreu. Por mais difícil que seja acreditar no milagre operado por Maui sobre sua própria integridade física (Ninguém escapa do abismo... lembram?) talvez tudo seja verdade e o mesmo ser ou pedaço de memória acoplado no mito dos game maníacos consiga resgatar das tardes mais calorentas entre ruídos de péssima sintonia das televisões: pedaços de filmes, talk shows obscuros e outras maravilhas dos tempos em que a decrepitude terminava seus efeitos devastadores sobre a cultura da fita k7.  Convido para a travessia:


Comerciais de tv, ativismo ambiental, lambada, duplas teen e insinuações de nudez politicamente incorreta. Diálogos em dublagem padrão Herbert Richter e sonoplastia para realçar a tensão (ou o tesão) porque a maneira vaporwave de encarar o tempo – se o entendermos como a sucessão que dá sentido ao compasso – só existe para deixar mais vaga a informação /  a certeza. A ideia é, de fato, descer ao mais raso (e por isso mesmo) alcançar nosso ponto mais sincero: nossa memória repleta de referências patéticas, mas profundamente afetivas impossíveis de serem dissociadas de nossas pulsões mais profundas.  Daí a urgência em rebaixar os tons. Timbres sempre no subsolo, voz explicitamente alterada. O abismo é um lugar de tons obscuros, tons cada vez mais para baixo. Estamos unindo as pontas de duas trilhas. Se encontramos o abismo em Maui desde sua história fantástica ao sobreviver à queda em um vulcão, se apontamos para a indefinição proposital de sua obra, para o labirinto de suas reminiscências musicais e televisivas e a impossibilidade de determinar um sexo para a/o personagem Mallard, assim como não sabemos de que são feitos Costa e Bodegón, assim como tanto para esses dois como para aquele/aquela existe um rosto a vociferar por trás , se percebemos como bruma, ou vapor mesmo, se alguém preferir proposições mais diretamente militantes, o que de fato querem ser no poema do som, do sentido e da palavra: então estamos sim criando um pensamento, deveras tímido e confuso sobre a dimensão terrível do abismo – algo que poderia muito bem passar por novidade -  sua insistente mania de devastar o corpo e a mente (principalmente) a mente de seus criadores. E posso dar um exemplo desse feitiço revirando sobre a mão que o tece ao abrir as portas do segundo abismo de Mallard:


 vinhetas num inglês saturado de distorções e chiados, ataques de metais e madeiras, uma orquestra para abertura de um programa dominical, fausto silva, suas garotas e todo bolão de hipocrisia (daquela época ou muito mais de agora?) e funk melody,  um tiroteio e muitas perturbações. Aqui entraria um citação direta de versos do “corrente de bike no pescoço”, a intenção seria agravar o sentimento ambíguo, a vontade de rir ou de tomar cianureto, para que isso seja mais efetivo prefiro colocar o link direto do exemplar inteiro:


[relendo, acabo de reparar na menção à anatomia do apóstolo Pedro e faço aqui uma confissão: não usei o texto do apóstolo antes por causa dessa citação, queria mesmo falar de tentação e demônios e afins. O órgão excretor daquele  digníssimo senhor – até então, até agora - continuava intocável]  tainha, wine and lots of sex, cenas deletadas de qualquer pornô, alguém mijando e cuspindo na boca de uma metáfora. Pontos? Pontos de encontro ou de repulsão? O que eles querem desdizer com isso? Eu não estou aqui para responder e acho que vocês (como muito espertos que são) já devem ter percebido.

III

Há um apelido terrível: algo que poucas vezes deve ser pronunciado. Para todo e qualquer efeito nunca queira ser conhecido como eles : horses killers. A “figura [de Maui Mallard] almeja um tiro exato” na própria cabeça e em nossos tímpanos destreinados para tanto estampido:


E eu sei que Dantas fala de outra figura, de outro projétil. Acontece que não abrirei mão das correspondências que minha preguiça exigir. Nenhum respeito ao artista é a melhor lição que posso aprender com esses. Aqui outra bifurcação: doenças crônicas no fígado para mim e para Emerenciano, suicídio assistido, digo: ouvido via bandcamp para Maui Mallard. São os destinos: maktub. A cada obra o exercício da depreciação, o mergulho na vastidão desse lixão formoso: a memória de pouco mais de uma década. Crescemos aos trancos e abraçados com a promessa de não conhecer o fracasso. Fomos enganados. O tumor do abismo mais incômodo que um apêndice avariado. Só agora, com o atraso necessário, descobrimos que sabíamos a profecia. E a profecia não pertencia ao Bodegón, não pertence a Maui, nem a mim. A profecia sequer existe para além do abismo.
Minha tese está acorrentada ao calcanhar de quem manipula o ventríloquo Mallard (perdoe-me Camillo José) e sinaliza para a necessidade mais forte: matar-se. Matar-se a cada obra. Não esperar que os nativos da ilha te amarrem e joguem vulcão abaixo. Lançar-se. Estrangular-se assoviando como Spike Spiegel antes de fechar os olhos para abrir de novo experimentando os poderes de Cold Shadow. Rir das próprias chagas, fragilidades e incompetências. Virar algo mais etéreo que purê. Ser mais breve que um vapor. [funcionar como engrenagem sobre a noite] ser o vampiro e a discórdia.
&
 Minha antítese está aferrolhada no pulso de quem sopra nas narinas de Emerenciano e El bodegón: estar vivo e agressivo. Este é o tempo da violência sem amarras, da reação instantânea. Pedrada. Mentir: saber o que procurar entre escombros... muitas glandes mutiladas, estátuas de filhas de vênus só mamilos e esperas, obsessões progressivas, um samba fora dos padrões para ouvir antes do baque surdo no fundo da ausência. A certeza só das chacinas: assim se faz literatura, assim se faz boa música

para ninguém

IV


O texto: A - pode ser ignorado sem prejuízo dos links aqui apresentados. B -  é obscuramente um correr desorganizado de pensamentos em círculos. B II – nunca concêntricos.  C - o último? Elo? – para perder completamente qualquer ligação com

aqui

e



agora?




sábado, 23 de maio de 2015

Minha primeira vez


Caríssimos e baratíssimos leitores preparem-se para revelações sobre a intimidade deste que vos importuna. Um fato absolutamente extraordinário me obriga a voltar por aqui. Claro que a maioria dirá entre suspiros e muxoxos: “você acha qeu isso vai despertar meu interesse?”... Bem senhores (ainda) tenho fé numa parcela mínima da humanidade que pode desenvolver algum sentimento pio e cristão sobre assuntos que demandam solidariedade e altruísmo. Quero abrir aqui meu coração para este acontecimento, certamente tardio, (mesmo para meus parcos vinte e três anos de sobrevivência) mas só agora passei por esse rito e isso merece algum barulho.
Foi numa noite linda, perfeita, luminosa. Fez bem para minha cabeça atravessada por tantas inquietações (finalização de livro, produção de um disco, o destino dos zines, os possíveis eventos) tudo isso girava nas antessalas da mente. Eu precisava de alguma coisa pra descarregar tanta energia e o ato foi perfeito. Prazer puro, mesmo com alguns instantes de tensão, certo medo de dar errado, acontecer de me frustrar no fim. Mas num lugar daqueles com toda aquela mágica abraçando os olhos, aquela atmosfera, percebi logo que era impossível ser ruim. Assim se deu uma espécie de pequena morte. Foi bom, nem podia ser muito diferente.
Confesso que adiei muito aquele instante, as chances até que se apresentavam, mas essa síndrome romântica que sempre me acomete em momentos críticos não me permitia que acontecesse em qualquer lugar. Minha primeira vez no cinema tinha que ser no São Luís. Assim foi. Semana passada eu, finalmente e finalmente, entrei numa sessão e assisti a um filme todinho. Não me frustrei. Claro que os exageros de sangue derramado em Relatos Selvagens (Damián Szifron) merecem seu mérito. Estão presentes ali o humor que amarga qualquer sorriso, as situações ao mesmo tempo absurdas e deliciosas, levando de uma angústia quase insuportável à sensação de alívio, mesmo que por desfechos ainda mais violentos: A “película” mereceu ser minha primeira viagem. Sobre o São Luís o que eu poderia dizer... Prefiro ficar como naquela noite: completamente mudo pela beleza de tudo que se via nas paredes, no teto, nos vitrais, até no vermelho pulsante das cortinas que guardavam o telão. Voltei a ser menino, o mesmo que sempre foi fascinado pelos filmes e que sempre achou a telinha pequena demais pra imaginação que bulia por dentro e queria mais som, mais imagem e mais calor.  Contemplar e principalmente dialogar com a obra de arte é um exercício próximo demais de uma briga ou de uma transa: diálogo que pode ser agressivo, excitante ou os dois – o último jeito sempre o melhor – a leitura do poema, a audição de uma peça musical... Penetrações, toques, pancadas... Arte sem tirar o fôlego, corpos sem perder o fôlego: como não?... Demorei vinte e três anos, seis meses e vinte dias para finalmente enfrentar mais essa forma de obter orgasmos: afinal esse prazer estranho que nos invade quando ficamos frente a frente com a beleza – ou qualquer coisa que não se possa nomear bem – não parece tanto com aquilo que nos faz suspender o ar, o sangue, e todos os movimentos do corpo?
Espero não ter frustrado muito os curiosos, e se você chegou até aqui nessas linhas: não duvide, estou mesmo rindo de alguém que deve ter entrado no texto com uma voracidade enorme... só me resta indicar o filme e o cinema – principalmente o cinema – aos ilustres heróis que vieram seguindo o rastro da curiosidade. Visitem aquela sala belíssima às margens do capibaribe: é um ótimo lugar pra se ter uma primeira vez e tentar rir com os Relatos Selvagens.  

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Vigília


As sombras nunca deixam de ser irrequietas, mentindo enxames de criaturas nas vielas sujas desta parte mais baixa da cidade. Estamos aqui desde o pôr-do-sol, os prédios maiores ainda refletiam as últimas réstias, alguns automóveis atravessavam a avenida e os poucos transeuntes pareciam deslizar na calçada, com a pressa natural dos alvos fáceis, quando subíamos pelas escadas de emergência. 

 

*         

“Espero que hoje meu braço não fique dormente, não quero errar de novo” eu falei tentando manter o cigarro entre os dentes. “Você é um covarde” o outro respondeu e escarrou, fechando os olhos ao olhar para baixo.  Sinto a ofensa, acho graça de sua contraditória demonstração de fraqueza, mas é melhor não dizer nada. Disseram-me para não criar problemas com ele. Poderia ser meu último ato sobre a terra. Não quero pagar pra ver.

 

*

Olho a lua, o sol não deixou vestígios.

 

*

Foi fácil encontrar o local demarcado. “Aqui estamos completamente cobertos”, me achei um completo idiota depois de dizer algo tão óbvio. Ele me olhava com desprezo, muito me irritava o ar de superioridade, os modos mecânicos na montagem dos equipamentos, a tranquilidade ao dizer “Nunca estamos acima dos riscos, Nem mesmo aqui. Vigiar. É só o que precisamos fazer.” Eu precisava me calar.

 

*

Era uma rua de residências simples. Casas térreas, alguns poucos prédios de poucos andares. Do nosso esconderijo podíamos ver os locais onde antes as pessoas caminhavam. Um silêncio sem cães me perturbava.

 

*

“Não vai acontecer nada.”

“É o que você quer.”

“Estou apenas falando algo bem previsível... A última vez que usamos essas coisas foi há dois meses.”

“E você ainda conseguiu errar. Eu tive que resolver o problema.”

“Já falei que meu braço fica dormente quando passo muito tempo parado numa posição”

“Não sei por que te colocaram nisso.”

“Estou aqui porque sei esperar.”

“Se soubesse estaria calado. Nenhuma espera pede alarido.”

 

*

Quando eu era criança acompanhava meu pai em suas caçadas, ainda havia floretas de verdade e animais em abundância, eles ainda podiam ser exterminados sem grandes remorsos. Foi como ver de novo o bicho saltando da moita. Um menino pula a janela de uma das casas, corre para o meio da praça, para o balanço solitário do parque. Assim como meu pai fazia com lebres e esquilos, tive que coloca-lo na mira vermelha de meu rifle. Não tive escolha.

 

*

“Atire!”

“Ele parece com meu filho...”

 “Acabe logo com isso. Cumpra a ordem.”

“Meu Deus! Não posso matar uma criança.”

 

*

Ele me acerta um chute no rosto. Meu rifle escorrega para longe. Sinto o sangue jorrar de meu nariz numa torrente morna.

 

*

“É assim que se faz. Seu covarde.”

 

*

Tomou meu lugar na borda. Deitado posicionava o rifle na altura exata, um olho fechado, o outro preparando o tiro, as mãos sem o menor sinal de tremor.

 

*

O menino livre no balanço soltando ao vento gargalhadas girando lento e leve olhando as nuvens as constelações as coisas menos sombrias na grande noite da cidade.

 

*

O menino brinca diante de meus olhos atônitos.

 

*

O menino oferece a testa à mira deste homem que, concentrado na caça, me ignora.

 

*

Súbito! Dois tiros.

 

*

Leva as mãos à garganta de onde está se esvaindo. Agoniza. Há espanto em seus olhos? Parece não saber o que se passa.

 

*

Estou com medo. Não queria ter errado o tiro. Ele nunca foi meu parceiro. Estávamos apenas vigiando o mesmo perímetro. Também nunca gostei dele, mas vendo-o envolto em tanto sangue, gemendo cada vez mais fraco, não consigo engolir o arrependimento. Deveria tê-lo acertado entre os olhos. O tiro que ele deu sumiu no céu negro no exato instante em que minha bala passava entre suas cordas vocais. A dor fez seu braço apontar a arma para o olho glauco da lua. Depois ele escorregou lentamente até meus pés onde agora se asfixiava em sangue. Por que não enfio logo uma bala na cabeça desse infeliz?

 

 

*

Lá embaixo o menino continua no balanço. Não há mais homens apontando rifles para seu rosto.

 

*

Penso em meu filho. Será que ele seria tão estúpido como essa criança a ponto de continuar brincando no parque depois de ouvir dois tiros? A pistola em minhas mãos pesa um pouco mais que o de costume. Não vou coloca-la de volta no bolso onde estava escondida. Também não vou encostar seu cano curto e frio em minha têmpora. Se não fui homem o suficiente para abreviar o sofrimento deste miserável que manteve olhos arrogantes até o último gemido, não posso abreviar o meu. Sei que os outros virão saber o que houve aqui. Chegarão logo. Não terei explicações. Chegarão com muitas armas. Descarregarão todas em meu corpo. O menino continua lá. Eu poderia avisá-lo ou cumprir a ordem. Ele me oferece sua testa límpida. Logo acima de sua cabeça há um outdoor piscando:

 

DECRETO Nº777 DO CONSELHO: ESTÁ EXPRESSAMENTE PROIBIDA

A CIRCULAÇÃO DE PESSOAS APÓS O POR-DO-SOL. HOMENS ESTÃO A POSTOS

COM AUTORIZAÇÃO PARA ELIMINAR QUALQUER UM QUE TENTAR INFRINGIR

ESTA LEI.

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Brevíssimo dizer sobre símbolos musicais e Touros.



Ando muito calado, na verdade pianíssimo - que é quando só há sugestão de som: só os dois "p"s na borda da partitura indicando que alguma nota está sendo produzida, a gente é que não escuta por ser tão desatento ou pela sacanagem de quem está executando a peça - pois bem... calado não. Nunca. Muito menos instrumentista sacana. A música persegue seu curso no tempo e no espaço, ondas e ondas, pulsações até no espaço transparente do silêncio. Então não me despede essa vontade da palavra, seu gosto travando as mandíbulas, seus jogos. É fato estar com coisas entre os dentes e não dizê-las. É fato, é claro. Um dia aprendo a mastigar mais devagar as sementes insanas de meu tempo: quando esse dia chegar correr perderá a graça. Você vai me dizer: "Veja bem... preserve-se... cautela, meu caro" - eu responderei: "Sou muito barato, baratíssimo - valendo nada... nada não... passo sem ser anotado", se eu não quizesse o risco aí sim ficaria quieto na minha, fazendo versinho, lendo e afagando as bundas viradas pra lua dessa nobilíssima - novíssima?! (sic...sic...sic...) - literatura. Calar é risco também. A gente tem medo desse escuro: ali a palavra já passou do estado excitante de lâmpada-língua exploradora de bocas alheias para o de fera intraduzível espreitando do novelo inteiro das sombras algum pescoço para esmagar. Nem mesmo catataus podem significar defesa. Bruto esse silêncio, ardência na virilha ou na vigília de qualquer poeta. O jeito é jogar pedras até não sobrar espelhos na face do abismo, soltar a matilha entoando lamúrias, berrar e provar-se humano boca na boca rubra do touro engatilhado da linguagem. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

Mal-nefasto aos Cabeças de Vento


I

Um anjo torto, um vampiro.  Um xamã, um caralho. Pela voz do fogo e pelo apagamento das sobriedades. Pela língua solta e fria no encéfalo eletrochocado de poemas. Não permitir o confortável, nem a palavra ao alcance do braço – escalar o perigo e berrar. Experimentar os abalos sísmicos das avenidas e não calar. Sujar-se de incêndios.

II

A vida só deve arder no olho de cirrose desta cidade. Qualquer metrópole suplica pelos suicídios de seus poetas: seja com gás, com navalhas ou com sintagmas. Leitura de ébrio para escândalo dos bons moços e das castas senhorinhas de sacada. Está escancarada a caça ao que ainda não tem feições nem nome. Eis nossa primeira persona non grata.

III

O que se passa meus chapas? Olhem à volta. Lá fora o boato se espalha: o poema não é só brinquedo ou trapaça, sem-vergonhices com a linguagem na vulva da língua. O poema também fode teu neurônio, tua risada. O poema, as mãos de seda e o coração de ferro. Tua arrogância na mesma poça de mijo, sêmen e bile de um indigente. Sem perdão.

IV

Não temer tesoura e cola. Mas ter cunhões pra olhar nos olhos dessa galeria de putos que nos precederam. Saber que eles permanecem aqui perto, nossos vizinhos de quarto, gemendo mais alto, fazendo as orgias mais originais, tendo os mais longos e invejáveis orgasmos. Chegaremos lá?

V

O rock ainda faz os melhores hematomas. Ainda é rock a roda punk. Mas ninguém admite estar cansado dessa roda onde só se bate com luvinhas de pelica. Vamos lá, onde o primeiro foco de incêndio, a primeira baderna no olho do cu da rua? Há muito tempo eles acusam-se de estar fartos e nós? Será que ainda demora pra perceber que o recreio já acabou?  Pula pra cima, cai do muro que embaixo só resta os cacos. Eu quero. Vi. Ver.

VI

Pela mulher atravessando todos os olhares de fome. Ela sendo o poema que devasta nossos exibicionismos de garanhões capados. Pela mulher percebendo as mentiras do poema e de quem o sustem e não se deixando enredar: fazendo o seu. Sereias seriais, jamais jamais só tigresas com muito ódio no coração: o poema é a última vibração dessa chama. Pela mulher, o monumento de seu reinado sem vingança. A maravilha de seus mamilos. Nossa fome persiste, nos resta engolir em seco e vidraças. Pela mulher em pelo.

VII

Daqui não dá mais pra fazer meia volta.

VIII

Pela devastação de toda zona. Zona de conforto. Pra quê tanto mimo? Meninos e meninas das rotas de fuga, mamãe e papai sempre a postos, ícones de merda dessa geração. Eu quero olhar nas vísceras derramadas do louco. Onde estás ó louco dos vigésimos andares da insanidade metropolitana? Onde tua queda livre perante pessoas cheias de nojinho e pirraça? Onde estás que não chegas com teu chinelo a tiracolo pra enfiar na bunda desses pirapatéticos?

IX

Não. Não saberão o que eu soprei ao nada. O que eu perdi. Ninguém sabe perder. Imagine perceber quando acontece com o outro.

X

Cada um anda sozinho tão acompanhado. Desolação. Todo mundo é cabeça aberta, todo mundo respira um mundo novo de possibilidades. Pula que eu quero ver. Vamos! Enquanto eu mastigo a fúria, que vem pedrada como minha lágrima e depois suspende até minha fala. Patéticos, meus camaradas patéticos, maduros como azul com amarelo, sábios da vida e das versões perfeitas do sexo feito com medo. Experientes maníacos da autopromoção. Pela gagueira que um dia acometerá vocês. Pela mudez da boca costurada.

XI

Eu não conheço as planícies. Eu não me interesso pelo que diz o monge, não me peça ouvidos.   Eu não pretendo calma. Eu não represo por ter calma, represo por ter fúria e porque eu quero. Meu querer depois de aceso só vira sombra no estômago de um cadáver. Eu posso tocar isso. Sim, eu posso. Pela loucura de quem não usa retrovisores, pela loucura de quem treme, mas não suspende a mão, pela loucura de quem não tem medo do abismo e sua multidão de águas. Pela loucura de não poupar os fígados.

XII

Essa não é. Não é. Não é a hora de se arrepender.

XIII

Eu sonhei com uma tribo onde as coisas eram divididas. Essa tribo hoje chupa as raízes do bosque mais frondoso. Ossadas patéticas, gente outrora viva, utópica e bem mais patética. Alterar-se para perceber mais fundo em cada pose a raiz patética de nossos dilemas todos. Pela vida mais interessante que as notas em meu caderno encardido. Pelas portas das pernas sempre abertas. Pelo fim dessa merda de máscara adaptável a qualquer ecossistema. Ah a música não me deixando esquecer vossas desafinações. Pelo amargo mais amargo desse copo e por minha cara que não vai se alterar. Pelos meus olhos que não cansam de esperar a ruína de vossos cabelos.

XIV

Permaneço só. Já sei onde cada peça repousa antes do bote. Agora eu. Eu. Eu quero tocar isso pela destruição de tudo o que é frágil. Tão frágil que sequer consegue admiti-lo.

XVI

Estamos em depressão. Meus bens! Onde meus bens e a tribo fodida assentarem. Batucaremos

XVII

Aplausos! Aplausos! O número está só no começo. Bobocas da corte. Menininhos maus. Poliglotinhas de xoxota rasa.  Vocês sempre se saíram muito bem de todo buraco onde enfiarem essa cabeça de vento. Vamos à merda, vamos todos. Todos e ninguém. Dizem que a gente chega lá.  

XVIII

Salada. Nosso poema bem poderia ser uma salada de frutas salgadas. Uns bombardeios no sempiterno das virilhas. A nudez é o melhor recado e o mais patético. Ó patéticos testículos! Ó patéticos grandes lábios!

XIX

Selvagem! Dicionário, cemitério, sanatório: mijemos na cabeça, mijemos. Mijemos na cabeça desses filhos da puta que passam pertinho. Pertinho do poema e ficam fitando enojados. A orgia. Pela decapitação das cabeças de vento! Já!

XX

Estamos bem na foto! Meus bens! O amor faz cu doce, não quer me dar nem um beijo de língua, a buceta dela é tão linda! É tão linda! Tão suculenta! O amor é essa coisa que eu nunca acreditei com olhos arregalados. Eu sou um pervertido, meu amor. Eu quero te comer sua linda, eu não quero te dizer um poema: troco meu poema pelo meu pau.

XXI

Geração de merda essa minha. Estamos sozinhos e fodidos. Eu gosto de rir na cara desse século: não tenho medo de sua boca de esfinge, de seu cu e suas engrenagens. Esse caralho de século e suas putas parindo poetas. Os homens comem as mulheres, as mulheres se comem e depois dão pros homens e está tudo bem. Amor livre?  Ah deixemos de utopias baratas que o shopping está cheio de escadas rolantes exatamente pra que evitemos esse tipo de esforço físico. Amor livre? Ah conversa de otários e orifícios.

XXII

Quando pensei que o malnefasto estava pronto me acenderam tantos motivos... temo nunca mais termina-lo: é certo que a certa altura o abandonarei e mais certo ainda que o lerei para quem deve ouvi-lo. Foda-se o resto. Quem se magoar que procure uma estaca para se empalar.

XXIII

Se eu disser que estou farto vocês vão considerar um plágio então que se fodam vocês também. Pois estou farto mesmo. Olhem à volta esse circo, esse espetáculo repetitivo e canibal... pois fiquem todos sabendo: sou mesmo cruel quando quero. E eu quero.

XXIV

A fúria? Eu queria que escapasse do texto direto para a jugular dos putos que aporrinham minha vontade de dizer coisas breves. Sangrá-los seria um magnífico e verdadeiro espetáculo.

XXV

Eu paro quando quiser. Quando achar que já ardeu o suficiente. O texto parece algo tão decente: me dá pena às vezes... bem pouca pena... Bem poucas vezes, mas o texto deles acontece num instante tão singelo: é uma lástima enfiar-lhe uma broca no cu – pena não fazer isso com quem o escreve... pena mesmo...

XXVI

Sabem mesmo o que é a loucura? Brincando com tanto fogo vocês chamuscam a bunda seus malandros... que caiam de cara na fogueira: não se metam com o xamã que ele lhes puxa a perna, fode vocês de mau jeito... brincar com fogo: enquanto a gente gasta os dias tentando mantê-lo aceso... se isso for justo eu me afogo na primeira maré de setembro. Enquanto isso, estou rindo, rindo com força porque somos muito. Muito. Muito patéticos. Muito patéticos.

XXVII

...

XXVII

Outra coisa escute bem. Escute só. Mas escute mesmo: Eu também não quero fazer razão. Razão! Razão?! Ah! Eu não quero.

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Salve o vampiro & o Xamã. Venham pegar essa turminha que tem medo...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Bodas



Estou morrendo. Transponho uma porta, rastejo em minha própria hemorragia. Um corredor de chão rubro se espraia de mim. Agora, deitado, vendo o líquido descer rumo ao fim das paredes, comprovo o que sempre suspeitei quando andava descalço por aqui, o piso da casa está desnivelado. Pena que não me resta tempo para conserta-lo. Nunca mais. Levantando-me. Seguro as paredes como um lagarto, sinto a frieza dos tijolos em minha barriga, a vista é turva, sombras enlaçadas nos cílios, mal diviso meus sapatos obscuros, meus passos. Tenho à frente este corredor sem fundo, abrindo-se num túnel apagado, caverna dentro da casa, não me lembrava de ser tão longo o trajeto daquele quarto ali atrás, de onde saí a custo, até a porta da rua, posso crer que ela me aguarda logo à frente, escondida no vazio, minha salvação. Quase cadáver, meu corpo alquebrado. Desenhos de sangue. Para quê pintei essas paredes no último natal? O corredor era branco. Agora há gravuras encarnadas, havia outras, o sangue pouco a pouco as decalcou como faziam as crianças, ou são outras figuras, animais em transe, estranhas formas se contorcendo? O corredor é uma tela viva, fervilhando de bichos malignos, maldições de meus olhos? Delírios? A morte se aproximando de mim com seu séquito?  Chega-me novamente a visão daqueles olhos. Quando os mirei soube que a hora do acerto de contas havia chegado. Não trocamos palavra. Ela sabia que terminaria assim. Porque não me deixou ir embora? Porque não largou a maldita arma? Mirava meu coração e eu tremia. Eu não sabia que terminaria assim. Por isso não sabia como explicar. Ela nunca quis entender. Há orifícios em meu peito, e um líquido quente encharcando minha camisa vermelha, outrora branca, há marcas de unha em meu pescoço, em meu rosto, há seu perfume no meu corpo. Ela ainda quis ser minha. Nua e louca. Eu queria mata-la. Rolamos pelo chão do quarto, envoltos no silêncio, só nossa respiração ofegante rasgava aquele véu finíssimo. Tentamos nos estrangular, em nossas unhas, mesmo nas minhas, tão curtas, ficaram resquícios de carne. Ela estava mais forte do que eu, movida pela fúria, pelo desejo de me ver sangrar até a morte. A arma já descarregada: uma bala estilhaçara o abajur sobre a cômoda, outra se fincara na madeira atrás do espelho fazendo chover sobre nós cacos de vidro, uma terceira alojou-se no meu ombro esquerdo, outras duas formaram quase um mesmo buraco logo abaixo do bolso direito de minha camisa e a última escapara pela janela. Eu queria viver. Sem balas, mas ainda não satisfeita ela me dominara, estava sobre mim, me sufocava. Meus olhos procuravam uma defesa. No chão daquele quarto os pedaços do abajur e os cacos de vidro. Ela parecia cega, olhava para meu rosto, mas certamente via outra cena, mais cruel. Seus olhos pareceram abrir mais quando gritou ao sentir o primeiro golpe entre suas pernas. Senti em minha mão o calor do sangue dela. Tentei ser rápido, continuei enfiando o caco de espelho, com toda força que ainda me estava. O silêncio persistia, embora eu quase pudesse ouvir o som do vidro rasgando sua carne, a maciez dos lábios. Não esboçou resistência. Entregou-me seu corpo mais uma vez. Montei sobre ela. Eu te amo, e enfiava mais o vidro. Eu te amo, ela respondia e parecia sorrir. Eu te amo, minhas forças acabando sobre o corpo dela. Eu te amo, e as palavras dela saiam com sangue. Eu te amo, minha mão já se perdia dentro daquele corpo. Eu te amo, era só um gemido em surdina, Eu te amo, algo pulsava perto de meus dedos, Eu, algo deixou de pulsar dentro dela, mas o sangue não cessava, se misturava com o meu. Fiquei algum tempo deitado ao seu lado, como fazia desde a lua-de-mel, há tantos anos atrás. Como eram belos os seus cabelos, como a dor fizera de seu rosto um retrato medonho. Não fechei seus olhos, permaneciam, lindos. Beijei uma última vez aquela boca, senti o gosto salobro, coagulado. Transpus uma porta, rastejei em minha propria hemorragia. Estou aqui, pintando com meu sangue as paredes do meu lar, preciso chegar à porta, preciso fugir antes que cheguem, preciso. Já posso ver a porta, mas é muito tarde. Caio aos pés da madeira. A dor dilacera minhas entranhas, me resta pouco sangue, pouco ar. Fecho os olhos e já posso ouvir lá fora as risadas inocentes de nossos filhos voltando da escola.