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domingo, 9 de março de 2014

Novamente nove de março

Vivo numa cidade demarcada. Marcos de pedra, limites, cercas e muros. Vivo numa cidade sitiada pela posse. "Na minha cidade a gente aprende a morrer só", como diz Márcio Borges e Milton, e aprende a esquecer. Mesmo hoje depois de tanto "avanço", nestes tempos de tanta reflexão políticamente correta, ainda cultuam certos "vultos" (e são vultos, sombras mesmo) de nossa história, hérois que se notabilizaram pela crueldade e cobiça, pelo desejo de poder e prazer... hoje merecem estátuas e status de épicas proporções. Meu 9 de março tem um significado bem diverso do que estou vendo por essas bandas. Não consigo pensar em festa, em aplaudir uma "civilização" que se firmou sobre o sangue de outra, "civilização" que se apossou em nome de uma "fé" de um chão que não tinha dono porque os que viviam aqui sentiam-se pertencidos à natureza e não o desastroso contrário que os europeus trouxeram em suas naus... como posso comemorar a devastação da mata atlântica, a poluição dos rios, a matança e contrabando de animais, a dizimação de tribos, seja pela espada, seja pelas doenças que mataram uma população que nunca precisara antes se tratar de um simples resfriado... Somos todos resultado desses desencontros e encruzilhadas históricos, eu sei. Somos cria desse tempo, herdeiros também... isso não nos obriga a rituais tão contraditórios, a cerimoniais tão pios para celebrar crimes hediondos. Creio que a palavra genocídio não será lembrada, nem pronunciada hoje por alguma ilustre figura que em solos de Igarassu for tecer elogios à Duarte Coelho, soldado nas índias, colonizador no Brasil, mãos de ferro em Pernambuco... ninguém perceberá o lapso (afinal há coisas muito belas para se falar... feitos heróicos, benfeitorias, desenvolvimentos...) ninguém fará a menor questão por lembranças de luto e dor (afinal como já me disse certa vez alguém: "eles já estão mortos mesmo..."). Cosme e Damião foram médicos cristão martirizados por terem dedicado a vida aos pobres, séculos depois tornam-se patrocinadores de batalhas sangrentas... espero que o sono dos justos os tenha impedido de ver tamanha agressão à suas histórias de caridade e entrega... quanto a mim continuo sem conseguir engolir esse amargo travo que a história guardou... outros sequer tem conhecimento e muitos que tem procuram esquecer, varrer pra debaixo do tapete... faço agora o que fiz ano passado e farei enquanto minhas mãos e meus olhos permitirem: grito com palavras na tela como gritaram os índios (segundo nossa "linda" lenda) seu grito-escarro Igarassu, não um grito de espanto (eles já conviviam com navios a pelo menos trinta anos) mas um alarme, um aviso, presságio de tragédia, não havia festa no som entre as folhas da mata, o grito atravessou folhagens para avisar que a morte chegava... Igarassu: um marco de pedra. Um marco de sangue. Meu 9 de março não tem hérois, nem sinos dobrando esquinas barrocas...

domingo, 13 de outubro de 2013

Dar a ver Igarassu


A cidade abriu,


oferecendo-se como uma puta,

o poeta,

com seu sexo nos olhos,

penetrou-a, frio e máquina,

no recanto mais íntimo,

fenda dentro da fenda,

nas entranhas dela

 

ele sorveu tudo pelos olhos,

digeriu,

depois escarrou no papel,

dolorosamente

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Bailar da Cidade


Ela

não dança tão bem

samba

frevo

forró

Igarassu não é de Junhos e Fevereiros

Recife

Caruaru

Rio de Janeiro

Talvez o passo lerdo de um xote,

... o baque do maracatu?

ou o religioso dos franciscanos,

se o palco fosse permitido a eles,

embalado pelo canto gregoriano

Safadezas do Canavial


Daqui

assisto a cana

fazer par com o vento numa contra dança,

menos dança

que sem-vergonhice ao ar livre,

Se o vento,

entre cada passo,

abraça

lambe

roça

pesa seu corpo sobre o corpo dela

e quase lhe desveste

as saias de palha

não agride, soca, os olhares mais pudicos?

libertinagens da cana

Numa dança

só daqui

Igarassu, Araçoiaba, Goiana

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nasceu Movimento NAUVOADORA!!!!


É sempre em êxtase
que se compartilham grandes momentos.
Abri essa postagem para falar de minha alegria
ao participar hoje da fundação de um movimento
que com certeza significará um novo momento para a literatura em Igarassu.
NAUVOADORA
- Nome de minhas primeiras tentativas na poesia
- Nome de uma iniciativa revolucionária
Dupla Felicidade
A Edvan Senhorinho, companheiro poeta, outro idealizador deste momento devo esta alegria,
este momento esperançoso.
E convido os olhares incansáveis, ávidos por palavras
a se abrirem sobre as viagens de nossas Naus-Poesias-voadoras, seja em longas alturas de sonho ou muito ligadas ao exato chão da lucidez.

P.S.O blog do movimento estará disponível em breve.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Mangue


- É na lama: idéia constante

do mangue, em sua fina lã

de enredar-se que reside

o húmus lúcido-secreto

nada espontâneo (presente)

mas à espera do trabalho

de pescador (labor, cansaço)

a que o poeta é lançado.

E necessário ofício,

sem sono (noite, negridão)

é que consome o pescador-

poeta, Com a precisão

da claridade viva no dia

e no mangue, e na lama negra

ele extrai a lucidez,

a força do seu vivo verso





- Igarassu é para o mangue

a fruta por dentro, completa

e mineral - exterior

recanto - na casca de pedra.

Também é a boca: devora

sua semente; é a fronteira

entre lama, cinza, escuro

e pedra, verde, claridade;

é prosaico no poema,

o discurso em vez do canto,

neste plantar foi a cidade

quem em seu centro germinou

sendo tema do texto-mangue,

obsessão do poeta-sujo,

paixão do frio pescador

e fogo para cada verso.





- O mangue é o gerador,

produz a paisagem mortal:

labirintos de fina raiz,

caminhos diversos, distantes,

cheiros fortes e voadores,

com incompletude em tudo

falsa, enganadora, frágil -

mentira -. Mangue que é fábrica,

que é reino, é o verdor

e a sujidade; na verdade

encontrando-se mangue e pedra,

chocam-se dois mundos e tempos:

A pedra ou imobilidade

da cidade: solução clara.

O verde-negro manguezal:

a dinâmica do mistério.





Aratus, guaiamuns, caranguejos

e siris: a vida do mangue

na verde essência do lameiro,

bichos que se fixam na rede

da lama para o seu pescar

inspirando o pescar - covarde -

de outro bicho da negra lama

que nela se funde e vive:

o homem sempre pescador.

E nas veredas deste reino

repletas de ciladas, mortes

escondidas no elemento

máximo de fertilidade

caminha o pescador-poeta

sem medo procura na lama

a lógica real do poema.



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Marco de Pedra


Fronteira, limite, final

entre mar e terra é linha

de pedra: ruína do tempo.

à margem os homens da lama,

do mangue (à margem do marco

como se fosse a própria pedra

de suas vidas em lamaçal

atolada), do natural.

Entre mar e terra é linha

e demarca a própria ruína

na praia (quando da baixa

das águas) mostrando fedor

nos restos do tempo: nas pedras

centenárias, na areia pisada,

nas casas simples: resumidas,

no homem dali, na sua vida

de pedra: ruína do tempo.

Marco de pedra paragem

sombria, localidade triste,

(mergulho na negra maré)

melodia seca dentro, N`água,

o lugar secreto, perdido

por outros homens (não da lama)

da cidade sua: Igarassu,

à margem os homens da lama,

homens da pedra, da diversa

fronteira, no esquecimento

deste lugar finalizados

e no final, limite, fronteira

é linha entre mar e terra

é ruína do tempo: pedra

à margem do marco de pedra.

Imagens do Tabatinga


Correnteza fina:

às margens flutuam

os restos do rio.

E peixes afoitos



-piabas e guarus-

afloram na linha

d`água. Passarelas

de mato cobrindo



a corrida riacho

mentem o murchar-se

do fluxo ardente

em tímido fio



que quase parando

escorrega manso

entre sufocantes

margens. Já cansado



de sua caminhada

longa, encerrando

na clausura (bordas

de seu caminhar



no próprio caminho

que é) este sempre

novo correr lento

de rio indolente.



Do poeta não

conhecer o rio

desde seu cair

nascente - firmeza -



só saber o rio

preguiçoso, parvo

em sua indefesa,

rio assassinado



É o mostrar trágico

do morto-vivaz

em paradoxal

condição: palavra.



Mas já conheceu

o poeta rio

lógico no simples

correr-correnteza



( o mesmo que hoje

suicida cadáver

quase, enlouquece

em lenta jornada)



num ritmo de salto

das linhas - em curso,

correnteza - enxutas:

rio em madureza.



Olhado, porém,

em margem diversa

ou sem margem (só

a enchente do rio



transborda nas beiras

corrida veloz)

trorna-se verdade

n´água seu enterro