domingo, 2 de outubro de 2011

Luzia II

O vinho profuso das horas
apura-se
de tuas pupilas
e todos os sóis
acesos em tua carne

sideram-me

até o cerne dos ossos

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ao ouvir / voar / velejar (n)uma Barcarola


A melodia adensa-me nas coisas e na cena, sentir a música é muito mais que ouvir é um deixar-se devorar pelo som, é um ser- som... e os acordes, as escalas, e as vozes povoando o vazio, e o dedilhado nas casas da viola, as cifras fulgindo verdes, rubras, douradas do braço dos violões, das teclas cromáticas do cravo, do saltério que repousa no colo de acalantos, das cordas pendentes dos seios da pastora casta. O quarteto vocal derrama-se em dissonâncias, e um sudoeste vadio arrasta ora para longe, ora para perto a cantiga flutuando nas águas claras do Velho Chico. A sereia despiu-se mais, o rio se fez mais veloz, a melodia tornando-se árvore e sombra sobre a barcarola e os corpos delgados dos trovadores enrolando-se, rolando numa ciranda, fundindo-se em carne e nervo, incendiando-se com o diabolo in musica, tão longe agora o patíbulo e as chamas e o Santo Ofício. Ieronimus Bosch e Bach confabulam ao fundo numa chuva de partituras, telas pincéis e trompas inflamadas... tão instantânea é esta cena construindo-se, como este texto ensandecido, como este ouvinte preso ao feitiço daquilo que lhe pedra no peito e queima nas mãos... e os dedos já me pedem sons... e agora deixai-me pegar meu violão, que para nada serve o dizer nestas horas embriagadas:

"Noite longe que ficou em mim
quero levar. ( Geraldo Azevedo / Carlos Fernando )"

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Observação dos pássaros

foto( 2010): Jonatas Onofre

Recife, Av. Guararapes, Edf. Almare (terraço)

A Neuza, que também os fotografou

I

Revoando


do ocaso

horas


ensurdecendo


relógios

num chilro sagrado e à deriva

miramos


o sol, mais densa das aves, que

vazando

o teto desta cidade

suspende,

ainda,


no mais alvo, exato,

dentre as cores,

seus: ovo

e

canto

II

De todas

as estrelas insones indóceis

o vôo

Impassíveis


ante


a lua incubando-se

grande mãe

ao ninho de trevas

silentes

Recife (Almare) 22/06/2011

segunda-feira, 21 de março de 2011

Outros olhares sobre Teresa

teu centro:
tão externo,
à flor,
à vista
quanto a pele que veste o concreto de teu corpo

teu dentro:
tão fora,
ao avesso,
aberto
que és violentada por todos os foras

quarta-feira, 2 de março de 2011

Poéticas da Alvorada


I

Produzir a manhã
em cristal exato

que condense
clareza e consciência,

percorrendo-a,
ir mais, além de sua essência

II

Tirar palavras do nada,
de uma presença vazia,
é menos que recortá-las,
manuseá-las frias
e domá-las, possuí-las,
violar e esquentar suas entranhas pias

III

Povoar de palavras necessárias
o verso, o poema, a poesia
povoar e anular
neles todo excesso e segredo,
toda brasa,
toda fuga, todo vôo
que não este,
sobressalto,
pássaro sem asa,
pedra no caminho

IV

Cada dia meu
é de se fabricar coisas,
elaborar, traçar linhas,
entretecer amanhãs,
fundir palavras em palavra,
lutas vãs,
tantas dentro de minhas horas
de suor e fazer
nessa oficina
onde espero
a luz higiênica de um sol
para queimar a mão suja
antes do escrever

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Luzia I


Há uma rua acesa:
Atrás de minhas pupilas:
paisagem abrasada:
limpa, de todo:
Higienizada:
Eu a percorro:
como quem não quer nada:
medindo tua presença:
Mulher iluminada

sábado, 13 de novembro de 2010

O vôo de H.


Sai A rua invade seu corpo Cada partícula de luz som e lixo violentando suas entranhas Passos mínimos quase um deslizar na calçada Num chão encardido cachorros e homens É como se não lembrasse mais dessas coisas exatas da cidade. Uma menina quase nua, boca sem dentes, olhos grandes e líquidos, cabelos emaranhados em negrume.

- Dá um real, moço. É o balbúcio da criança

Ele treme. Pára.

- Vamos, é só uma vagabunda.

Foi um leve susto, ouvir a voz ao seu lado e lembrar que durante todo o tempo estavam ali, passos parelhos aos seus, as mesmas figuras inexatas, guardando-o. Guardando-o do quê? Percebe que está andando de novo, a menina de olhos d’água ficou para trás. Esqueceu-a. Eles ao seu lado. Por que não falam mais? Esse véu de silêncio, coisa disforme pesando sobre as cabeças curvadas, a conduzi-los não se sabe para onde, talvez onde o nada sonoro seja apenas água estagnada, poça onde se afoguem, solidão. Parece que se deram conta da gravidade das coisas e do que vão fazer. Agora tudo é solene. Caminham.

***

A estrutura de concreto cresce à sua frente. Seu corpo vibra. Estancou.

- Deve ser o mais alto.

- Isso é loucura.

Ignora as vozes vazias, que todos vão à merda com sua censura. Nunca entenderiam. Volta a andar, em sua mente também desfilam as lembranças...

-... Sete meses de vida...

Daquela conversa com o médico, só gravara aquele fragmento. Recebeu-o como um soco no meio da cara, diante de si um velho de branco, olhos breves sob sobrancelhas sumidas na face alva. Esperou a morte, temeu a dor, mas não fugiu. Leito de hospital Inércia Gemidos suspiros cheiro de morte e uma paisagem branca anulada Todas as noites de sua vida condensadas num quarto azul mesa sem flores janela sempre fechada no teto uma flor de metal girando girando girando...

Uma noite, quando a escuridão foi mais forte, sentiu um abraço esquálido ossos a envolver-lhe o corpo parco falanges esmagando seus tumores gritou de sua boca saíam as coisas mais improváveis: guarda-chuva girassol um quadro de Mondrian televisores e um morcego amarelo. 40 graus de febre e breu.

Quando a manhã lhe despertou, sentiu o corpo como não sendo seu, foi um prazer, algo novo em suas sensações. Seria aquilo a ressureição? Fruto de um milagre naquela manhã distante?

- E aí vai entrar ou não?

Novamente eles o despertam. Desta vez encara os rostos vazios, mas não tem nada para dizer.

- Quer mesmo fazer isso?

Volta a andar, sem encontrar a resposta. Entra no Hall. Silêncio. No elevador faz sinal para que os outros fiquem. Querem protestar Fecha a porta sobe.

No alto, seus olhos perdem-se no azul. Pela primeira vez consegue um pensamento lúcido, tão neutro e branco como as únicas nuvens nesse céu. Agora não há mais lembranças, todas se fundiram, o tempo se fecha numa esfera de vidro, a cidade é apenas a coisa mais suspensa deste momento. Lá embaixo os outros, esperando. O que farão? Não importa, tem plena convicção de sua loucura e da vida. Seu vôo sobre as coisas é o mais intenso até o fim. Pousou.

O segundo seguinte chega com lágrimas. Por que está chorando? Nunca fora homem de sentimentos. Acreditava em milagres? Talvez tenha sido um milagre. Enxuga o rosto e ainda não sabe por que chora. Pela primeira vez desde tantas horas os ares recebem o fio de sua voz, um sopro carregado de vergonha, um segredo que flutua enquanto ele olha para cima:

- Obrigado !

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Bailar da Cidade


Ela

não dança tão bem

samba

frevo

forró

Igarassu não é de Junhos e Fevereiros

Recife

Caruaru

Rio de Janeiro

Talvez o passo lerdo de um xote,

... o baque do maracatu?

ou o religioso dos franciscanos,

se o palco fosse permitido a eles,

embalado pelo canto gregoriano

Safadezas do Canavial


Daqui

assisto a cana

fazer par com o vento numa contra dança,

menos dança

que sem-vergonhice ao ar livre,

Se o vento,

entre cada passo,

abraça

lambe

roça

pesa seu corpo sobre o corpo dela

e quase lhe desveste

as saias de palha

não agride, soca, os olhares mais pudicos?

libertinagens da cana

Numa dança

só daqui

Igarassu, Araçoiaba, Goiana

terça-feira, 26 de outubro de 2010


Ao querido companheiro

Relampejar e
duelo de arrancar...
homem,
das faíscas
que emergem e
explodem no trabalho
exijo a dizer.
sou pé sujo
sob a poça de suor.

Leandro Pedrosa

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Teoria da Composição Pós-moderna

O poeta se tranca
em seu quarto de mil portas
protegidas por mil senhas
e sistemas de alarme

depois puxa o zíper em suas costas,
desveste a pele,
ficando nu ante seus espelhos,

assim, carnes à mostra,
admirando seu umbigo

fotografa-se digitalmente

*

Outro liga sua máquina copiadora
e espera, tímido funcionário,
que ela cuspa a poesia-fotocópia,
tão rápida quanto inexata

*

Outro ainda, entra
em banheiro,
defeca sua poesia mal digerida
e com mãos de padeiro
vai dando forma
a essa massa de merda

*

Outro poeta artesão,
este mais raro, pois anula a máquina,
só permite sua mão,
busca exata,

é em câmera lenta,
avesso à construção automática,
à poesia foto instantânea,
ao verso de funcionário,
à desinteria grave

Não vem da linha de produção
ou dos intestinos sua arte,
mas do querer mostrar por seu olhar

o invisível...

*

Um quinto poeta, sozinho em seu quarto, ao ver todos esses na tela do computador correu à janela,

e jogou-se do décimo nono andar

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nasceu Movimento NAUVOADORA!!!!


É sempre em êxtase
que se compartilham grandes momentos.
Abri essa postagem para falar de minha alegria
ao participar hoje da fundação de um movimento
que com certeza significará um novo momento para a literatura em Igarassu.
NAUVOADORA
- Nome de minhas primeiras tentativas na poesia
- Nome de uma iniciativa revolucionária
Dupla Felicidade
A Edvan Senhorinho, companheiro poeta, outro idealizador deste momento devo esta alegria,
este momento esperançoso.
E convido os olhares incansáveis, ávidos por palavras
a se abrirem sobre as viagens de nossas Naus-Poesias-voadoras, seja em longas alturas de sonho ou muito ligadas ao exato chão da lucidez.

P.S.O blog do movimento estará disponível em breve.

Poemas Empedrados ou Quatro vozes sobre a Pedra




Para Leandro Pedrosa e sua "Pedra na Pista"
1.
Provoca-me a pedra,
impele-me a pedrar,
percorro-a então, pedra
buscando seu medrar,
abrindo exata pedra,
na pedra de empedrar,
densa em si, pedra,
pedra de amolar

Inerte não é a pedra
mas tenso o seu pedrar,
é pedra que brota pedra,
que já sabe o medrar
e guarda na sua pedra
a essência do empedrar
o pulsar, de pedra,
do meu pensar, amolar
2.
Intensa é a pedra,
num áspero pedrar,
ao conter na pedra
um explodir do medrar,
mas presa, a pedra,
no seu empedrar
silencia, torna pedra,
o verso de amolar

Secreta é a pedra,
se, prisioneira, pedrar
pois dentro de cada pedra
há sempre novo medrar
que procura, em pedra,
a quem empedrar
que se forma, na pedra,
poema de amolar
3.
As vidas de pedra
fruto do petrificar,
são vidas duras, pedra,
empedernidas no brotar
da pedra de outras, pedra,
da pedra de habitar,
daquilo que forma a pedra
e completa seu aguçar

Se a vida é pedra
em pétreo petrificar,
nascemos completa pedra
ou só depois do brotar
em vida concreta, pedra,
deixa-se habitar
por pedra que sendo, pedra,
não se anule do aguçar
4.
Na paisagem só pedra,
ou do livre petrificar,
se conhece a pedra
ao vê-la no chão brotar,
aquilo que vem, pedra,
no homem habitar
é pedra que o faz, pedra,
instrumento de aguçar

O homem aguça, pedra,
todo o seu petrificar
ao afirmar a pedra
e deixá-la por si brotar,
comforma-se com a pedra,
ao permitir seu habitar,
nas entranhas da vida, pedra,
sempre a aguçar, amolar

João, Maria e a Fome


Degustaria a maciez de fruta
em Maria,
se não insistisse em tecer
lençol de gestos e carícias,
para preservar-lhe as carnes de fruta,
alimentando sono, fome
e espera

A fruta, quando no cio
aguarda dentes que a triturem,
quer perder-se nos movimentos da língua,
desmanchar-se na boca,
ser engolida, brutalmente

Então anule nela
a fome de anular a fome,
mas permita ainda
uma folha de fome,
resto sem forma, de desejo
formando-se fruta, novamente, recomeço de fome

Maria provoca, agride, esperando revide

Ele, continua tecendo seu lençol...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Olhares sobre Tereza




Meu tato na retina
arrepia ao tocar-te;

Meu paladar na retina,
lingua, que te percorre;

Meu ouvido na retina
percebe, pluma, tua voz;

Meu olfato na retina
aspira-te a cor, as curvas;

A retina na retina
ao mirar-te, por dentro,
condensa na retina
meus olhares, devoro-te
em todos os sentidos

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Opinião

(...) Retomo a poesia de Jonatas Onofre. Uma poesia lúdica, com claras referências a João Cabral de Melo Neto, com uma pitada de Drummond, mas também com essência "onofreana". O poema "A Chave", é pura metalinguagem: " Poema se desvenda verso / e número: na estrutura / firme, medida ( construção / em estrofes e versos claros) / neste se parecer com casa / cheia de quartos, salas, portas. / Neste precisar claramente / de chave para abrir seus cômodos / (...)". É inevitável ler estes versos e pegar o grande segredo do desvendamento desta casa chamada poesia: a chave. É com ela que abro o mundo das palavras. Segundo Drummond lá "tem mil faces sob a face neutra e te pergunta sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres: trouxeste a chave?". Como se isso não fosse o bastante, Jonatas Onofre foi ainda "catar seu feijão" e escreveu " A máquina de Johannes" outro poema pautado na temática do fazer poético: "montou peça por peça máquina / exata, clareza medida / no controle sobre o dizer, / na tranquilidade do fazer (...)". As faces de Jonatas Onofe vão sempre mais além. A temática da morte num contraste interessante no poema "Dialética de uma morte" o qual faz a violência representada por um projétil que sai do cano de um revólver numa "devagar rapidez" que atinge o leitor e que a vida representa o "sim" e o chumbo o "não". Segundo Aristóteles em sua Poética, "nós olhamos, contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas coisas que olhamos com repugnância", é o que acontece nos versos: "ocorre o embate (sim-não): / O sim operário - José - / miolos a mostra já morto / estendido no meio fio". Assim como a personificação no poema " No Coletivo" que na realidade não sabemos até que momento ele fala do ônibus como meio de transporte lotado e onde o ônibus é o próprio eu-poético.
( trecho do texto "Fazer poesia hoje" de Isaac Melo )

A tecla Enter


Essa suspensão,

pulsar do cursor

no final da linha

antes do ponto

cortando meu verso

na tela da máquina;

do teu salto reto

cavalgando o verso

à próxima linha;

é a mesma tensão

do verso de antes,

do antes do verso,

do verso bulindo-me

por dentro, pedindo

as medidas, fôrmas

e o corte lúcido

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Mangue


- É na lama: idéia constante

do mangue, em sua fina lã

de enredar-se que reside

o húmus lúcido-secreto

nada espontâneo (presente)

mas à espera do trabalho

de pescador (labor, cansaço)

a que o poeta é lançado.

E necessário ofício,

sem sono (noite, negridão)

é que consome o pescador-

poeta, Com a precisão

da claridade viva no dia

e no mangue, e na lama negra

ele extrai a lucidez,

a força do seu vivo verso





- Igarassu é para o mangue

a fruta por dentro, completa

e mineral - exterior

recanto - na casca de pedra.

Também é a boca: devora

sua semente; é a fronteira

entre lama, cinza, escuro

e pedra, verde, claridade;

é prosaico no poema,

o discurso em vez do canto,

neste plantar foi a cidade

quem em seu centro germinou

sendo tema do texto-mangue,

obsessão do poeta-sujo,

paixão do frio pescador

e fogo para cada verso.





- O mangue é o gerador,

produz a paisagem mortal:

labirintos de fina raiz,

caminhos diversos, distantes,

cheiros fortes e voadores,

com incompletude em tudo

falsa, enganadora, frágil -

mentira -. Mangue que é fábrica,

que é reino, é o verdor

e a sujidade; na verdade

encontrando-se mangue e pedra,

chocam-se dois mundos e tempos:

A pedra ou imobilidade

da cidade: solução clara.

O verde-negro manguezal:

a dinâmica do mistério.





Aratus, guaiamuns, caranguejos

e siris: a vida do mangue

na verde essência do lameiro,

bichos que se fixam na rede

da lama para o seu pescar

inspirando o pescar - covarde -

de outro bicho da negra lama

que nela se funde e vive:

o homem sempre pescador.

E nas veredas deste reino

repletas de ciladas, mortes

escondidas no elemento

máximo de fertilidade

caminha o pescador-poeta

sem medo procura na lama

a lógica real do poema.



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dialética de uma morte


- A bala que matou José,

antes de estourar-lhe o crânio,

de ser vôo denso, projétil,

fazer-se morte endereçada




manteve seu corpo inerte,

metal no metal do revólver

esperando seu explodir,

seu abrir viagem projetada




- Consistiu de duas viagens,

em viagens-ímãs, opostas,

atraindo-se vida-morte,

num aproximar-se do choque




- Uma viagem fez José

e foi a do sim, afirmar-se:

a do trabalho, de operário,

lado positivo do ímã,




de manter-se, sobreviver-se:

jornada em nada fantástica

por ser diário seu correr

e por ser José só mais um



- Outra viagem fez a bala

no negativo do metal,

busca do nada, do negar-se

o positivo em José



só concretizada na morte,

na negação maior, total,

na finalidade de bala:

levar o fim de José



- Ele despede-se na rua,

Ela explode metal em vôo,

Ele caminha com um sim,

Ela contem em si um não



Ela sai de um tiroteio,

Ela da casa resumida,

Ela deslizando veloz,

Ele tranquilo. Sem atraso



- Ocorre o embate (sim-não):

O sim operário - José -

miolos à mostra já morto

estendido no meio fio,



o não,limpo, reproduzido

em José na poça de sangue,

no cenário vazio, lúcido,

na bala dentro de seu cérebro



- Os dois completos num só corpo,

fundidos no próprio desfecho:

Na negação - afirmação,

fim do homem ou recomeço

No coletivo


O tomar-se, entrar-se ônibus,
abrir-se risco de contato,
é sempre tensão resumida
num medo, calado no íntimo,


De jogar-se no coletivo,
mergulhar-se nos outros, dar-se
ao toque e assim afogar-se,
imergir-se por entre outros;


De mirar-se no coletivo
e mirando-se refletri-se,
encandear-se nos espelhos
que são os outros; De lançar-se


num pele contra-pele, rasgar-se
nos outros, esfolar-se todo;
Deformar-se no coletivo,
gastar-se, fundir-se nos outros